Uma frase económica mítica: para criar distribuir riqueza é preciso criá-la primeiro.
No debate orçamental a principal medida do governo AD2024 foi baixar o IRC.
A justificação desta medida: a) a concorrência internacional, já há países com taxas de 15%; b) ao aumentar os lucros retidos pelas empresas aumenta-se o investimento e desta maneira aumenta-se o crescimento económico, logo a riqueza criada.
Cá está: primeiro cria-se riqueza, só depois se deve fazer na sua redistribuição.
Aparentemente esta frase faz todo o sentido. Aparentemente, pois há hipóteses que para ser verdadeira não estão explicitadas, uma delas é que essa redistribuição não agrave a repartição de riqueza.
Será que a repartição de riqueza, isto é, o que cabe da riqueza aos mais ricos e aos mais pobres, pode ser agravada? Claro que pode, se a percentagem de crescimento da riqueza dos mais ricos for superior ao crescimento da economia. Foi isto que Picketty provou na sua tese de doutoramento, «o capital no século XXI». Nos países por si estudados, claro a França, provou que os mais ricos têm ficado mais ricos. Logo esta frase tornou-se numa crença sem adesão à realidade.
Há outra falácia que Keynes já tinha desmascarado, como explicação das crises, mais riqueza não significa mais investimento (sem ser de carteira), tudo depende dos «animal spirit» dos investidores. Isto é, os investidores só aplicam dinheiro produtivamente se tiverem confiança. Keynes preferiu esta formula geral a explicar os motivos que levam ao investimento, porque são vários e contextualizados.
Concluindo: Esta frase tornou-se ideológica, uma crença, sem suporte real, quer porque pode faltar o «animal spirit» ao investidor e mesmo que o tenha pode não investir o suficiente, pelo que a sua riqueza cresce mais do que a economia e temos mais acumulação da riqueza nos mais ricos e reforço da desigualdade social.
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